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MANHÃ DE DOMINGO, UMA LIGAÇÃO E UM FIM

 

    Um dia como muitos outros, amanheceu, mais um frio domingo de janeiro, no entanto, o sol não raiou naquela manhã. O desjejum foi atípico naquela manhã, o café quente não foi capaz de aquecer o corpo e muito menos a vida daquele que o tomava, o alimento não saciava a fome e nem era capaz de renovar as forças para aquele dia, aquele frio dia. O belo bem-te-vi que todas as manhãs fazia companhia com seu belo canto tropical, pairando sobre as árvores floridas da região também não apareceu. Aquela era uma manhã diferente, de tão fria, era possível sentir a alma congelar.
    Nove horas, vinte e dois minutos, domingo, manhã nublada, o silêncio sepulcral daquela manhã foi rompido por um alarmante toque de telefone, por dez segundos a tela e a face estiveram se encarando, o identificador de chamadas notificou "Número desconhecido", e repentinamente a manhã fria e nublada passou a congelar, o céu de nublado, escureceu completamente, no entanto, apenas eu podia perceber aquilo, o peito apertou, o corpo parou, era incapaz de atender a chamada, parecia que algo me dizia que aquela ligação mudaria tudo. Após muito olhar para aquele "Número desconhecido" estampado na tela, a ligação caiu, demorei muito, respirei fundo, levei a xícara de café à boca novamente, e quando o líquido encontrou o paladar, ouviu-se o mesmo toque, o mesmo número, a mesma sensação, atendi.
    Não havia sido enganado, aquela ligação mudaria tudo, os dois primeiros segundos foram de silêncio, uma respiração ofegante estava do outro lado da linha, como se segurasse algo preso, que ao sair destruiria tudo "quem é?" foi tudo que me permiti dizer, "irmão, sou eu" logo reconheci a voz, mas não estava como sempre, estava amarga, não estava verde como de costume, estava em um tom de azul quase marinho e aquilo me assustou "você já soube?" me perguntou, e eu não fazia ideia do que se tratava e logo respondi negativamente, pois de fato, não sabia. Os próximos cinco segundos foram os últimos segundos normais da minha vida. "Entendi" respondi após ser esclarecido dos fatos, "estou indo aí, chego já', logo tomei um banho gelado, vesti-me, como sempre, de preto, e saí. Fria, negra e cruel manhã, atravessou-se a cidade rápidamente, desesperadamente, perigosamente, aquela ligação, como eu queria não ter recebido aquela maldita ligação. 
    O orvalho, aquela hora da manhã, ainda cintilava sobre as folhas das árvores, sobre as pétalas das flores e ao cair nas calçadas e ladrilhos da velha cidade, tudo isso passava como em câmera lenta diante dos olhos, embora a velocidade do trajeto estivesse acima do adequado, cada segundo daquela manhã de domingo, após aquela ligação ficariam marcados na memória por toda uma vida. Ao longe, diante dos olhos, um único raio de sol fugiu entre as densas e negras nuvens, como um sinal de renovo, mas não, era impossível o renovo, não naquela manhã de domingo, não após aquela ligação.
    Cada metro da velha cidade em que passava fazia ecoar o que foi dito ao telefone, era uma voz calma, baixa, mas ensurdecedora, que se repetia, repetia e repetia vez após vez na mente, cada palavra era como uma mutilação feita pela mais afiada lâmina, na alma. O sinal fechou, o relógio chegou diante dos olhos, já se passaram vinte e cinco minutos desde a ligação, ao ver a luz verde, a velocidade dobrou, e rapidamente o destino estava lá, a alguns metros. Parei há exatos vinte e cinco metros, como o dia da promessa, e segui andando, como em toda a juventude, olhei para aquelas varandas, olhei para cada pedra que estava no chão diante de mim, foram os vinte e cinco metros mais frios e distantes da vida, ou do fim dela. Lá estava a porta, o interlocutor da ligação estava à porta esperando-me com os braços abertos e água nos olhos, era uma blusa branca que usava, o cabelo estava da mesma cor de sempre, com o mesmo brilho, mas sua aura não brilhava mais, assim como aquela manhã de domingo. Antes de entrar ouvi uma voz no meu ouvido que dizia algo como "até logo", mas ao meu redor não havia ninguém além do interlocutor, contudo reconheci a voz, e meu peito novamente se apertou. Adentrei naquele recinto, todos estavam lá, como se me aguardassem, como se esperassem minha reação, eu os vi, os cumprimentei, mas não estava mais em mim.
    Aquela ligação, terrível ligação, seu conteúdo não era falso, como eu muito esperei que fosse, pois lá estava você, minha querida, e tudo fez sentido, os pássaros não cantaram, o café não esquentou, o alimento não fortaleceu, o sol não brilhou, a vida não acordou naquela manhã de domingo, pois a vida já não mais estava lá, ela havia partido, você havia partido, e como o duvidoso que só acreditava vendo, eu a vi, meu peito não mais apertou, ele acelerou, minhas pernas me abandonaram e eu caí, de joelhos aos seus pés, minhas vestes negras já estavam cobertas de lágrimas, meu coração não batia mais, pois ele era seu. Ora, foi naquela manhã de domingo que a vida se encerrou, que a cor se apagou, pois a vida era sem cor antes de você e agora voltou a ser sem cor depois de você. "Sorria, linda, estou aqui", sussurrei eu, mas você já não podia mais sorrir. "Brilhe seus olhos, meu bem, ilumine a vida", eu chorei, mas você já não estava mais lá. Foi o fim, no entanto Shakespeare estava certo ao dizer que a morte sugou o doce mel do seu hálito, mas não teve efeito nenhum sobre sua beleza. Como era linda, como uma boneca de porcelana.
    Aquela manhã de domingo foi o fim de toda a minha vida, e durante todo aquele terrível domingo eu admirei você, esperançoso de poder abraçar você novamente, mas era impossível. Segurei sua mão por todos os minutos restantes. Você se foi, e me levou junto.
    Todas as flores agora não faziam sentido, os raios do sol já não esquentavam, os perfumes já não mais agradáveis, os ventos já não mais refrescavam, o café já não mais era doce ou amargo, o chocolate já não dava mais prazer ao paladar. Você se foi, e sem você, pouco depois, eu fui.

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