Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de março, 2026

Transformação

     O amor, quando o é, não se contenta em ser apenas aquilo que sentimos, ele nos convoca àquilo que ainda não somos.      Porque houve um instante, silencioso, quase irrepetível, em que compreendi:  ela era, sem esforço, a mais espetacular das criaturas que meus olhos já ousaram alcançar.      E não falo de um deslumbramento raso, desses que o tempo dissolve com facilidade,  mas de algo mais grave, mais denso, quase um espanto permanente, uma espécie de reverência íntima que não se explica, apenas se sustenta.      E foi ali que o amor deixou de ser somente encanto   e passou a ser decisão.      Pois, sabendo quem ela era, não me bastava admirá-la.      Não me bastava querê-la.      Era preciso, de algum modo, tornar-me digno daquilo que eu reconhecia,  não por imposição, mas por uma urgência quase sagrada de não amar de maneira pequena aquilo que em si ...

Chegada

     Quem vem ao longe?      Pergunto ao horizonte como quem escuta um rumor antigo, como se o vento carregasse consigo a promessa de algo que ainda não se revelou. E então compreendo: é como se uma flor atravessasse distâncias inteiras levada pelo sopro do mundo apenas para fazer valer a vida do jardineiro. Assim chegaste. E onde antes havia apenas a aridez silenciosa dos dias comuns, tua presença fez brotar um jardim inteiro dentro de mim.      Talvez seja isso que o "eu poético do verdadeiro encontro" tenta dizer, ainda que tropeçando em palavras insuficientes: existem encontros que não pertencem ao acaso, mas a uma espécie de necessidade secreta da vida. Como se duas histórias, caminhando por rotas longínquas, fossem lentamente conduzidas para o mesmo ponto do tempo, onde finalmente se reconhecem.      Há algo em você que escapa à linguagem. Posso tentar descrevê-la, reunir adjetivos, erguer frases como quem constrói uma po...

A Janela

     Paro diante daquela janela, grande, ornada, silenciosa. Há algo nela que não é apenas vidro: é limiar. Para além de sua transparência, estende-se uma paisagem que não pertence propriamente a lugar algum. Não é um caminho que leve de cá para lá, mas uma travessia mais profunda: de quem fui para quem serei; de ontem para um amanhã que ainda aprende a nascer.      Ali, na distância macia daquele horizonte, vejo um menino.  Ah, que menino luminoso!      Ri com a liberdade de quem ainda não aprendeu a medir a própria alegria. O vento passa por seus cabelos como se lhe contasse segredos antigos, e ele responde, talvez conversando com o céu, talvez com um amigo invisível que o acompanha desde antes de suas primeiras lembranças. Corre com um brinquedo na mão, tropeça na própria pressa de viver, levanta os olhos para o alto como quem reconhece, no infinito azul, uma voz familiar.      Era um menino iluminado.  E pressi...