Não sei se um dia serei capaz de dizer com exatidão aquilo que de fato sinto. Ou se tudo que te entrego é ainda pouco diante daquilo que em mim se move quando você existe, existe, porque me parece que fazes além do que viver. É verdade que você me desorganiza até naquilo que eu nunca disse. Sempre que você sorri é como se o sol rasgasse o céu da madrugada fazendo surgir a aurora, sem arrodeios, sem licenças, rasgando e inaugurando a luz do novo dia, e me deixando exposto demais ao que tento disfarçar. E mesmo quando este transformador sorriso não é por mim, e sinto que injusta existência, ainda, e principalmente nesses instantes, é que mais aquece-me o coração. Teu brilho me alcança como um acidente bonito, desses que a gente não quer evitar, mesmo sabendo da transformação essencial que provocará. E transforma, de fato. Muda, vez que começo a me perceber onde antes não havia nada, como se tua mera existência revelasse falhas do que eu era antes de te notar. Eu já não sei onde term...
O amor, quando o é, não se contenta em ser apenas aquilo que sentimos, ele nos convoca àquilo que ainda não somos. Porque houve um instante, silencioso, quase irrepetível, em que compreendi: ela era, sem esforço, a mais espetacular das criaturas que meus olhos já ousaram alcançar. E não falo de um deslumbramento raso, desses que o tempo dissolve com facilidade, mas de algo mais grave, mais denso, quase um espanto permanente, uma espécie de reverência íntima que não se explica, apenas se sustenta. E foi ali que o amor deixou de ser somente encanto e passou a ser decisão. Pois, sabendo quem ela era, não me bastava admirá-la. Não me bastava querê-la. Era preciso, de algum modo, tornar-me digno daquilo que eu reconhecia, não por imposição, mas por uma urgência quase sagrada de não amar de maneira pequena aquilo que em si ...