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Transformação

    O amor, quando o é, não se contenta em ser apenas aquilo que sentimos, ele nos convoca àquilo que ainda não somos.


    Porque houve um instante, silencioso, quase irrepetível, em que compreendi: 
ela era, sem esforço, a mais espetacular das criaturas que meus olhos já ousaram alcançar.

    E não falo de um deslumbramento raso, desses que o tempo dissolve com facilidade, mas de algo mais grave, mais denso, quase um espanto permanente, uma espécie de reverência íntima que não se explica, apenas se sustenta.

    E foi ali que o amor deixou de ser somente encanto e passou a ser decisão.

    Pois, sabendo quem ela era, não me bastava admirá-la.

    Não me bastava querê-la.

    Era preciso, de algum modo, tornar-me digno daquilo que eu reconhecia, não por imposição, mas por uma urgência quase sagrada de não amar de maneira pequena aquilo que em si era grande.

    E então aprendi, ou comecei a aprender, que amar é também corrigir-se.

    Corrigir a pressa, quando ela pede calma.

    Corrigir o orgulho, quando ele ameaça erguer muros.

    Corrigir a palavra, antes que ela fira aquilo que deveria proteger.

    Corrigir a ausência, quando o amor exige presença.


    E, pouco a pouco, essa correção deixou de ser esforço isolado e tornou-se hábito, depois rotina, e enfim, natureza.

    Porque amar alguém assim não permite intervalos.

    Não há pausas onde o desleixo possa habitar sem consequência.

    Há, antes, uma delicada constância:

    um cuidado que se infiltra nos gestos mais simples,

    um zelo que se instala no modo de falar, de ouvir, de permanecer.


    E a dedicação, antes escolha, tornou-se inegociável.

    Como quem respira sem perceber, como quem retorna para casa sem precisar de direção, como quem, mesmo cansado, ainda encontra em si a disposição de ficar.

    Não por obrigação servil, jamais, mas por um tipo raro de vontade:
    a de crescer à altura do que se ama.


Assim, fiz do sentimento uma prática.

Da admiração, um compromisso.

E do amor, um exercício cotidiano de tornar-me melhor, não apenas nos grandes gestos, mas, sobretudo, naquilo que quase ninguém vê:
na paciência repetida, no cuidado insistente, na presença que luta para não falhar.

    Não perfeito, porque o amor não exige perfeição, mas atento, disposto, em constante construção.


Porque, no fim, amar alguém extraordinário

é aceitar, com humildade e coragem,

que não podemos permanecer os mesmos.


E, dia após dia, ainda que em pequenos gestos quase invisíveis,

decidir, outra vez, 

ser um pouco mais digno

do milagre de tê-la por perto.

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