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Somos

 


Quem somos?
Refletindo sobre essa pergunta, muitas respostas podem surgir. Mas a final, quem sou eu? Quem é você? Realmente nos conhecemos a ponto de nos autodescrevermos com maestria?

Somos uma construção de várias coisas, várias situações, sensações, pessoas, lugares, amores, sentimentos e memórias. Somos muito além daquilo que transparecemos. 
Geralmente somos frágeis e nos fazemos parecer fortes. Somos tristes e nos fazemos parecer alegres. Somos fracos e nos fazemos parecer muralhas intransponíveis. A maioria de nós somos crianças que têm medo do escuro, de ficar sozinho, de ser abandonado, de não conseguir voltar para casa, de perder um amigo, de levar bronca. Somos fracos, somos inseguros, não temos certeza do amanhã e isso faz-nos sentir as piores pessoas do mundo, por não poder controlar a própria vida.

Na realidade, somos apenas fruto de uma história, que nem sempre é agradável, na verdade ela é marcada por perdas constantes. Durante essa história perdemos pessoas, lugares, amizades, amores, companhias, sensações, sentimentos, e se não cuidarmos, perdemos a identidade, nos perdemos em nós mesmos. 

Dentre todos os temores de nossos corações, o maior deles está ligados a nós mesmos, o medo de não ser suficientemente bom, o medo de não poder ser quem devemos ser, o medo de decepcionar a quem amamos e fazer com que estes saiam de nossas vidas sem dar sequer adeus. Vós podeis pensar que este é um medo bobo, de uma mente tola, que só alguém insuficiente pensaria assim, e de fato. Alguém insuficiente pensa assim.
Esse alguém geralmente tem traumas ligados a sua própria identidade e personalidade, o que o faz sentir-se sozinho, inseguro, fraco, à margem, abandonado. A existência desse alguém é marcada por ocasiões de perda, de dor, de palavras duras ouvidas e de palavras doces nunca recebidas. 

Talvez sejamos, hoje fruto daquilo que não fomos e não tivemos quando crianças, talvez a nossa falta de autoconfiança seja fruto de uma ausência de algo que cultivasse em nós esse sentimento. Provavelmente, as inseguranças a cerca de sentir-nos amados seja devido a uma ausência de demonstração de amor, fruto de uma vida cercada de diminuições do nosso real valor.

A necessidade da autoafirmação, pode-se considerar, é uma consequência direta da falta de afirmação no tempo hábil. O excesso de auto cobranças vem a surgir de cobranças vindas de terceiros, que nos puseram em estado de alerta, de fragilidade, em uma posição de desequilíbrio, onde a qualquer momento tudo pode ruir e o mundo vir ao chão.

- Os poetas, muito comumente, são elogiados por seus belos e emocionantes textos, muito tocantes e facilmente identificáveis, no entanto não se questiona o que leva uma pessoa a ver o mundo com os olhos da verdadeira poesia, e nós lhes respondemos: necessidade. Os poetas, caso não enxerguem assim, não sobrevivem, e por isso costumeiramente cometem excessos, esperam muito, constroem altares e afastam pessoas. Poetas decepcionam, poetas vivem dentro de si uma luta, contra si mesmos. Dia após dia, veem a poesia de suas vidas tornar-se em sequidão, eles cotidianamente, por exagero próprio se entristecem. -

Somos como uma criança, que afeiçoada por algo, alguém ou algum lugar, pede aos céus todos os dias para que aquilo não seja tirado deles, mas que choram logo em seguida, por perder sem despedida. Sofremos por saber que uma hora ou outra seremos descartados como um brinquedo ultrapassado. 

- Os peculiares, eles vivem em estado de alerta, prontos para qualquer situação, mas quando são abordados, mesmo prontos, travam difíceis lutas. Os peculiares não são úteis intermitentemente, eles são temporários e quando passam da validade, são descartados. Peculiares, extraordinários, não são tratados como pessoas comuns, são tratados com menor valor por quem deveria amá-los e como tesouro por pessoas aleatórias. Extraordinária é a vida, repleta de obstáculos, e o peculiar teme ter que lutar só, porque sabe que não é capaz de nada. -

Seja a vida mais do que as lembranças, as fraquezas, as inseguranças, perdas sem despedidas.
Seja a vida um eterno estado de poesia.

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