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Sonho

Estive com você essa noite.

Sonhei com você. Embora ainda não saiba se foi realmente um sonho. Há algo no que vi, e vivi, que me faz pensar que talvez tenha sido outra coisa: uma memória. Mas como poderia ser uma memória aquilo que ainda não vivemos?

Talvez um vislumbre daquilo que somente vimos acordados, quando por muito conversamos sobre nossos planos e, novamente, nossos sonhos.

E, caso tenha sido de fato um sonho, foi um daqueles que têm a capacidade de superar certas realidades. Eu estava contigo, era um sentimento tão familiar que, por mais que soubesse não ser o real, desejava não outra coisa se não permanecer ali, contigo.

Sonhei com você, e vi seu sorriso, como quem contempla a aurora de um novo tempo. Como se, diante dos meus olhos, o mundo lentamente deixasse a escuridão para trás e o brilho que vinha de ti anunciasse que dias melhores finalmente haviam chegado. Havia ali a promessa de um começo, uma certeza de que alguma coisa bonita estava nascendo.

Foi como assistir ao nascimento de um reino fantástico, como se o Leão estivesse novamente cantando. Não daqueles feitos de muralhas, coroas ou riquezas, mas de tudo aquilo que duas pessoas podem construir quando decidem permanecer uma na vida da outra. Um reino feito de pequenos gestos, de noites compartilhadas, de planos sussurrados, de abraços demorados, de afetos demonstrados, de mãos dadas, de um doce cheiro da pessoa amada, e especialmente, da tranquilidade de saber que, naquele lugar, nós dois pertencíamos um ao outro.

E foi também como descobrir um tesouro. Não um tesouro escondido embaixo da terra ou guardado dentro de baús antigos, mas daqueles que a vida nos permite encontrar quando já havíamos deixado de procurar. Sentia-me igual a se, depois de percorrer tantos caminhos, eu finalmente tivesse encontrado algo que não sabia que procurava, e ao encontrar você, tivesse compreendido que algumas das coisas mais preciosas da vida não são encontradas: são reconhecidas.

Estive contigo.

E foi tão real que, ainda agora, tenho a impressão de ter passado a noite inteira sentindo as batidas do teu coração junto de mim. Como se, por memória afetiva, eu pudesse reconhecer o som do teu coração em qualquer lugar, e mais ainda, senti-lo próximo ao meu, pulsando em algum lugar entre o sonho e a realidade.

Tive a impressão quase divina de sentir tua cabeça repousada sobre o meu peito enquanto eu respirava. E havia algo de profundamente cativante naquela sensação: perceber tua presença tão perto, sentir como se estivesse em casa, e imaginar que, a cada respiração minha, você permaneceria ali, tranquila, como se aquele fosse o lugar onde deveria estar.

Por alguns instantes, pareceu-me que o mundo inteiro havia diminuído até caber naquele pequeno espaço entre nós. Era a certeza imutável de que eu não queria estar em nenhum outro lugar.

Vi o teu sorriso enquanto dormia.

E meus olhos brilharam ao encontrá-lo, como se tivessem reconhecido nele alguma coisa que há muito procuravam. Havia tanto encanto naquele sorriso que, brevemente, tive a impressão de que a própria noite havia se iluminado, como se a lua, rainha do céu, tivesse se tornado cheia e se aproximado da terra, apenas para iluminar nosso encontro.

Foi como um raio de luz atravessando um inverno nublado, absolutamente inesperado, vivo e suficiente para aquecer tudo aquilo que tocava. E assim me senti ao olhar para ti, aquecido por uma luz que não vinha de outra fonte, mas de ti.

Teu sorriso me alcançou como um abraço depois de uma saudade dolorosa. Daqueles abraços que não precisam explicar a ausência, porque simplesmente fazem com que ela deixe de importar. E eu só conseguia olhar para você, em silêncio, desejando guardar para sempre aquela imagem: você sorrindo, enquanto eu descobria que até mesmo as mais densa escuridão poderia ser iluminada pela tua presença.

Enfim, acordei.

E talvez essa tenha sido a parte mais difícil, abrir os olhos e perceber que você não estava ali. Acordei com saudade. Uma saudade estranha, porque parecia sentir falta de algo que eu só havia vivido em sonho. Mas talvez seja justamente por isso que ela tenha doído tanto: porque por algumas horas, eu tive você comigo, e então precisei despertar para lembrar que aquele futuro ainda não chegou.

Acordei te amando um pouco mais. Acordei querendo você ainda mais perto, querendo que aquelas imagens deixassem de pertencer somente aos meus sonhos e encontrassem o lugar delas na nossa realidade.

Acordei querendo você comigo, não apenas nas noites em que meus sonhos me permitem encontrá-la, mas nas manhãs que ainda vamos viver, nos dias comuns, nas noites tranquilas, nos silêncios, nos abraços e em tudo aquilo que ainda viveremos.

Porque, depois de ter sonhado com você daquela maneira, acordar sem você por perto pareceu apenas uma lembrança de que ainda existe um futuro que eu quero viver, e que quero viver contigo.

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