Pular para o conteúdo principal

A Janela

    Paro diante daquela janela, grande, ornada, silenciosa. Há algo nela que não é apenas vidro: é limiar. Para além de sua transparência, estende-se uma paisagem que não pertence propriamente a lugar algum. Não é um caminho que leve de cá para lá, mas uma travessia mais profunda: de quem fui para quem serei; de ontem para um amanhã que ainda aprende a nascer.

    Ali, na distância macia daquele horizonte, vejo um menino. Ah, que menino luminoso!

    Ri com a liberdade de quem ainda não aprendeu a medir a própria alegria. O vento passa por seus cabelos como se lhe contasse segredos antigos, e ele responde, talvez conversando com o céu, talvez com um amigo invisível que o acompanha desde antes de suas primeiras lembranças. Corre com um brinquedo na mão, tropeça na própria pressa de viver, levanta os olhos para o alto como quem reconhece, no infinito azul, uma voz familiar.

    Era um menino iluminado. E pressinto, com uma estranha certeza, que jamais esquecerei o rosto daquele infante.

    Mais adiante surge um rapaz. Talvez tivesse caminhado com o menino, pois algo nele ecoa o primeiro: o mesmo olhar, o mesmo traço de sorriso que, de vez em quando, ainda floresce em seu rosto. Contudo, parece ter aprendido o peso das pausas. Já não corre com a mesma urgência, já não sorri com a mesma necessidade.

    Ainda assim, olha para o céu. E, de quando em quando, volta-se para trás, e com o menino brinca um pouco, como quem tenta preservar aquilo que o tempo insiste em transformar.

    Caminha rumo ao horizonte.

    Procura algo.

    Ou alguém.

    Quem sabe?

    Que confusão curiosa! Aqueles dois me parecem familiares. Aquela paisagem também. Como se tudo ali me fosse antigo, íntimo, reconhecível, sobretudo naquele ponto distante onde o sol se deita sobre a terra.

    Volto os olhos à janela. Agora vejo um jovem.

    Não é como os dois primeiros. Não parece sequer saber que eles existem. Há nele uma frieza imóvel, quase pétrea. Está parado, observando algo que não consigo distinguir, como quem espera por um acontecimento que talvez nunca venha.

    Parece indiferente à beleza que o circunda. E como poderia?

A paisagem continua esplêndida: o vento dança sobre os campos, a luz repousa suave sobre a terra, o horizonte ainda chama os caminhantes. Contudo, naquele jovem há uma ausência estranha, como se estivesse presente apenas com o corpo, enquanto sua alma vagasse perdida em algum lugar que nem ele mesmo saberia nomear.

    Sim. Ele parecia, de fato, perdido.

    Mas então algo começou a mudar. O céu, de repente, abriu-se.

    Primeiro como um sussurro de luz, depois como um rasgo luminoso no tecido da noite. Olhei para o relógio: passava da meia-noite. Como poderia haver claridade naquela hora? Mas havia. O céu ardia em brilho inesperado, e todos os olhos da paisagem se voltaram para o alto.

    Era o mesmo cenário, e, no entanto, não era.

    O vento soprou mais forte.

    A luz tornou-se mais viva.

    A vida pulsava com intensidade nova do lado de lá da janela.

    O menino ria como nunca. Pulava, girava, abraçava alguém que parecia tê-lo encontrado após longa espera.

    O rapaz, maravilhado, observava tudo com espanto e ternura; e, tomado por uma alegria que transbordava do peito, cantava, e também ele abraçava alguém.

    E o último… O jovem.

    Aquele que antes parecia uma fortaleza de silêncio. Aquele que permanecera imóvel diante do ponto onde tudo mudara.

    Agora estava ajoelhado. Chorava.

    Seu pranto caía sobre o campo como chuva tardia, regando a terra com arrependimento e esperança misturados. E mesmo ali, no meio de suas lágrimas, alguém o abraçava.

    Então aconteceu algo que não sei explicar.

    Das três figuras ergueu-se um brado, um grito de alegria tão profundo que pareceu rasgar o próprio céu. E, de algum modo inexplicável, aquele som atravessou a paisagem, atravessou o vidro, e chegou até mim. Foi então que senti. Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.

    Mas logo percebi que não era a primeira. Muitas outras já haviam descido silenciosas, como se meus olhos tivessem derramado rios sem que eu percebesse.

    Respirei fundo.

    Fechei os olhos por um instante.

    Refleti.

    Enxuguei as lágrimas.

    Quando tornei a abrir os olhos, um espanto percorreu todo o meu ser.

    Aquela janela — afinal — não era uma janela.

    Para minha inteira surpresa, eu estava diante de um grande, ornado e silencioso espelho.


Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Serendipidade

Existem no mundo palavras que parecem ter sido inventadas para explicar acontecimentos que somente a razão não consegue alcançar. "Serendipidade" é uma delas. Diz-se que é a capacidade de descobrir, por acaso, alguma coisa valiosa, útil ou extraordinária; um encontro que não foi planejado; uma beleza que surgiu diante dos olhos sem que a procurássemos. Mas há algo ainda mais bonito nessa palavra: o acaso, por si só, não basta. É preciso estar atento. É preciso ter os olhos preparados para reconhecer aquilo que a vida, inesperadamente, coloca diante de nós. Essa é, talvez, a parte mais bonita e mais irônica de toda a nossa história. Eu não saí pelo mundo procurando alguém como você, não desenhei um caminho que inevitavelmente me levaria até onde você estava, não sabia sequer que existia, em algum lugar desta imensa criação, alguém que pudesse ocupar em mim um espaço tão grande. E, ainda assim, você apareceu. Penso que não por mero acaso. Mas eu te reconheci. E penso que há enc...

Transformação

     O amor, quando o é, não se contenta em ser apenas aquilo que sentimos, ele nos convoca àquilo que ainda não somos.      Porque houve um instante, silencioso, quase irrepetível, em que compreendi:  ela era, sem esforço, a mais espetacular das criaturas que meus olhos já ousaram alcançar.      E não falo de um deslumbramento raso, desses que o tempo dissolve com facilidade,  mas de algo mais grave, mais denso, quase um espanto permanente, uma espécie de reverência íntima que não se explica, apenas se sustenta.      E foi ali que o amor deixou de ser somente encanto   e passou a ser decisão.      Pois, sabendo quem ela era, não me bastava admirá-la.      Não me bastava querê-la.      Era preciso, de algum modo, tornar-me digno daquilo que eu reconhecia,  não por imposição, mas por uma urgência quase sagrada de não amar de maneira pequena aquilo que em si ...